Saúde

Cigarros com sabor: INCA alerta para estratégia que mira jovens

No Dia Mundial sem Tabaco, o INCA voltou a defender a proibição de aditivos de sabor e aroma em cigarros. O alerta mira produtos que tornam o tabaco mais palatável para adolescentes e reacendem disputa regulatória no STF.

31 DE MAIO DE 2026 0 views 3 min de leitura
NA
Por Redação Novo Alvo
Fatos e Impacto 24h
Foto de Elsa Olofsson na Unsplash
Foto de Elsa Olofsson na Unsplash

O Instituto Nacional de Câncer (INCA) voltou a alertar para as tentativas da indústria do tabaco de liberar cigarros com aditivos de sabor e aroma no Brasil. O tema foi tratado no evento do Dia Mundial sem Tabaco 2026, realizado em 28 de maio, com apoio da Opas/OMS e participação de representantes do Ministério da Saúde, da Anvisa e de entidades de controle do tabagismo.

A preocupação é direta: sabores doces, mentolados e refrescantes reduzem a aspereza do tabaco, tornam a primeira experiência menos desagradável e podem facilitar a iniciação de adolescentes e jovens à dependência de nicotina.

Quem fez o alerta

O diretor-geral do INCA, Roberto de Almeida Gil, defendeu que o país olhe para o futuro da regulação, especialmente diante de novos produtos e dispositivos criados pela indústria. Para ele, a proibição dos aditivos deve ser entendida como parte do enfrentamento à sedução da iniciação de jovens e adolescentes no consumo de nicotina.

Maria José Giongo, chefe da Divisão de Tabagismo e Outros Fatores de Risco do INCA, relacionou o debate à trajetória brasileira de controle do tabaco, lembrando o peso da Lei nº 9.294, de 1996, e das políticas públicas que reduziram a exposição da população aos produtos fumígenos.

Também participaram do evento Cristian Morales, representante da Organização Pan-Americana da Saúde no Brasil, e Vera Luiza Costa e Silva, secretária-executiva da Comissão Nacional para a Implementação da Convenção-Quadro da OMS para o Controle do Tabaco. Ambos reforçaram que o impacto do tabaco ultrapassa estatísticas e aparece em doenças crônicas, famílias e ambientes frequentados por crianças.

O que está em disputa

A base da discussão é a RDC nº 14/2012 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), norma que restringe aditivos em produtos derivados do tabaco e mira substâncias usadas para conferir sabor e aroma. A regra foi contestada judicialmente por setores da indústria, entre eles a Confederação Nacional da Indústria (CNI), que levou o tema ao Supremo Tribunal Federal.

A Anvisa sustenta que a regulação busca reduzir a atratividade dos produtos de tabaco e, com isso, diminuir a iniciação de novos fumantes. A agência também diferencia aditivos indispensáveis ao processo produtivo de substâncias usadas para tornar o cigarro mais agradável ao paladar.

Stefania Schimaneski Piras, gerente-geral de Registro e Fiscalização de Produtos Fumígenos, Derivados ou Não do Tabaco da Anvisa, esteve entre as representantes citadas pelo INCA no encontro, sinalizando a conexão entre vigilância sanitária, controle regulatório e prevenção.

Estudo rebate argumento da indústria

Durante o evento, o INCA apresentou um estudo publicado em 2026 na revista científica Tobacco Control. A pesquisa, baseada em dados da própria Anvisa, refuta o argumento de que a proibição de aditivos de sabor e aroma inviabilizaria praticamente toda a produção nacional de cigarros.

Segundo o pesquisador André Szklo, um dos autores do estudo, os dados mostram que cerca de metade das marcas de cigarros manufaturados registradas no Brasil em 2025 não continha os aditivos vetados pela resolução. Para o INCA, esse ponto desmonta a ideia de que a indústria ficaria impedida de produzir cigarros no país sem recorrer a sabores e aromas.

Vapes e o mesmo apelo ao jovem

Embora a matéria trate principalmente de cigarros com aditivos, o debate se conecta aos dispositivos eletrônicos para fumar, como vapes e cigarros eletrônicos. A lógica de mercado é parecida: design chamativo, promessa de modernidade e sabores doces ou refrescantes que diminuem a percepção de risco.

A ACT Promoção da Saúde, presidida por Mônica Andreis, tem defendido a manutenção de regras mais duras contra produtos saborizados e dispositivos eletrônicos, argumentando que a combinação de nicotina, marketing e sabores cria uma porta de entrada para novos consumidores.

Por que os nomes importam

O alerta não parte de uma fonte isolada. Ele envolve o INCA, a Anvisa, a Opas/OMS, pesquisadores e organizações da sociedade civil. Roberto Gil fala pela direção do instituto; Maria José Giongo pela área técnica de tabagismo; André Szklo pela evidência científica; Vera Luiza Costa e Silva pela articulação da Convenção-Quadro; Cristian Morales pela Opas; e Mônica Andreis pela ACT.

Essa rede de vozes ajuda a explicar por que o assunto voltou ao centro da agenda pública: não se trata apenas de gosto ou preferência do consumidor, mas de uma disputa sobre como produtos de nicotina são apresentados a adolescentes e jovens adultos.

Por que isso importa? Cigarros com sabor e aroma tornam o tabaco menos agressivo na primeira experiência e podem facilitar a iniciação de jovens à nicotina. A decisão sobre aditivos, portanto, afeta prevenção, saúde pública e a capacidade do país de impedir que uma nova geração seja atraída para o tabagismo por produtos desenhados para parecerem menos nocivos.
Fontes:
  • INCA
  • Anvisa
  • Supremo Tribunal Federal
  • ACT Promoção da Saúde
  • OPAS/OMS
  • Agência Brasil
  • Gazeta News
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